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Ação de Limpeza do Pantanal retira 7 toneladas de lixo do Pantanal

Cerca de 60 pessoas, entre pescadores, ribeirinhos e voluntários do Projeto Teoria Verde recolheramcerca de 7 toneladas de lixo acumulados nas margens do rio Cuiabá, corixos do Pantanal de Barão de Melgaço e nas baías Sia Mariana e Chacororé. É um cenário que choca quem desce o rio de barco até as baías. A todo instante se pode ver lixo boiando na água. Jogado de forma aleatória nas ruas de Cuiabá e Várzea Grande, é levado pelas chuvas para a calha do rio Cuiabá e acaba se acumulando no Pantanal, a maior planície inundável do mundo. E a imundice urbana não pára por ai. Vai escorrendo pelo Rio Paraguai e ganha o mundo pelo oceano Atlântico.


Foram 24 horas coletando todo tipo de lixo: capacetes, geladeiras, fogões, plástico, latas, garrafas
PET, caixas de suco, leite, embalagens de óleo, tampinhas, roupas, chinelos e todo tipo de objeto
consumido pelos habitantes da Baixada Cuiabana. Em mais de 20 barcos, estavam os 40 pescadores profissionais da Colônia Z5, gente ribeirinha que vive até hoje do peixe, que come seu melhor alimento contaminado pela irresponsabilidade cuiabana.


Nascido na comunidade de Canga, em Barão de Melgaço, João Batista da Cruz é pescador desde
que era bem garoto e não deixa esconder sua tristeza ao ver a quantidade de porcaria que ele
encontrava ao abrir com as mãos a vegetação das margens do Pantanal. Com os olhos marejados,
ele clamava respeito pelo Pantanal e sua gente. “Parem de jogar lixo na rua, pensem em nós que
vivemos aqui nesse Pantanal que faz bonito pro mundo e nos sustenta. Cada um tem que fazer a sua parte”, desabafou.


O que não é encontrado no meio dos aguapés do Pantanal, está literalmente escondido nas baías de Chacororé e Sia Mariana. Em mais de 17 Km de extensão de lâmina de água, o lixo está
sedimentado em camadas depositados nos quase oito metros de profundidade. “É como se
jogássemos a sujeira para debaixo do tapete. A gente não vê, mas tá tudo aí”, mostrava o presidente da Colônia Z5, Domingos Antônio de Oliveira.


Hugo Miele, gerente de uma das pousadas de Barão de Melgaço foi um dos participantes da Ação
Voluntária de Limpeza do Pantanal.”É uma imagem ruim que o turista acaba vendo no Pantanal. É
difícil acreditar que alguém aqui jogue lixo no rio mas a falta de locais adequados para o armazenamento dos resíduos sólidos na Baixada Cuiabana provoca essa situação lamentável de ver o lixo escorrendo pelo rio Cuiabá e sendo depositado nos corixos, canais e nas baías do
Pantanal.Hoje a gente que trabalha com o turismo pantaneiro é obrigado a vê um turista fazendo
foto de um ave em cima de uma garrafa de refrigerante”, conta.


Antes de navegarem pelo rio Cuiabá, voluntários do projeto Teoria Verde, educadores ambientais da Secretaria Estadual de Meio Ambiente – Sema e catadores foram às escolas de Barão de Melgaço
conversar com os estudantes. Almerindo Sebastião Filho, diretor da Escola Estadual Coronel Paes
de Barros relata o trabalho educativo feito na escola. “Procuramos mostrar as crianças que o lixo
tem que estar no lugar certo. As crianças absorvem mais o comportamento correto que devemos ter com relação a esse problema. É muito preocupante ver tanto lixo sendo depositado no Pantanal” Ao seu lado, o garoto Isaías Emanuel da Silva, de 11 anos contava quantas vezes seu pai precisou afastar garrafas Pet, embalagens de óleo e capacete velho para conseguir pescar. “Tem dia que tem mais lixo que peixe “, lembrou.



O agricultor Pedro Rodrigues que tem uma propriedade rural na cabeceira do rio da Prata com o rio
Mutum acha que “não adianta esperar nada de político, temos que nos unir para acabar com o lixo,
com o assoreamento. Cada um tem que manter sua casa, sua calçada limpa. O Pantanal é o coração
de Mato Grosso e temos que lutar para que ele seja preservado. O rio Cuiabá é a vida da Baixada
Cuiabana”, disse.


O secretário Adjunto de Turismo de Mato Grosso, Luis Carlos Nigro foi ver de perto a situação
preocupante para turismo do Estado.’É impressionante a quantidade de lixo que desce pelo rio
Cuiabá jogado pelas cidades que ficam nas margens do rio, principalmente Cuiabá e Várzea
Grande. Gera um impacto muito negativo para o turismo. Você imagina o que é levar um turista
para ver uma natureza exuberante como a do Pantanal e ao mesmo tempo fazê-lo ver lixo boiando
nas margens, nos galhos. Tem de tudo, é muito ruim. Estas ações têm o objetivo de mostrar essa
realidade e mudar a cultura da população de jogar lixo nas ruas. “Precisamos preservar o Pantanal,
um lugar que não existe em nenhum lugar do mundo”.


O projeto Teoria Verde foi criado em 2016 e tem apoio de voluntários, entidades, associações e
instituições públicas. Já foram 52 ações de limpeza realizadas e 180 toneladas de lixo retirados do
Pantanal, Chapada dos Guimarães, parques e rodovias. Cerca de três mil voluntários já participaram
das ações. “Esse lixo, se não fosse retirado, acaba sendo levado pelas chuvas para os córregos,
chega ao rio Cuiabá e no Pantanal. Dali segue pelo Rio Paraguai e chega ao oceano Atlântico. É
lixo de Mato Grosso espalhado pelo mundo inteiro.


O coordenador, Jean Peliciari, conta que há alguns anos visitou Moçambique e ficou incomodado
com o lixo nas ruas. De lá pra cá eu comecei a motivar ações de limpeza em Moçambique.
Começou com 20 pessoas e já foram mais de 70 ações realizadas naquele país. Eu não percebia o
lixo na minha própria cidade. Vivemos o mesmo problema aqui. Lancei o Teoria Verde e
começamos a pegar lixo que outras pessoas jogam. A mensagem que queremos passar é que não
adiante culpar o Governo, a prefeitura, dizer que paga imposto para limpar a cidade. “O cidadão tem que entender que ele é o único responsável pelo lixo que está jogado nas ruas”, diz. A ação de
limpeza do Pantanal teve a apoio de voluntários, da Associação Casa de Guimarães, Secretaria de
Desenvolvimento Econômico, Secretaria Adjunta de Turismo, Sema, Assembléia Legislativa e mais
16 entidades.


Texto por Josana Salles e Fotografia por Rai Reis